quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Cagados anônimos

Esta seria a primeira reunião da qual Fábio participaria... Ele segue em direção as salas vazias e vê numa das portas a inscrição: "CA - Reuniões terças e quintas as 22h".
Entra na sala e se impressiona com a quantidade de pessoas que ali estão. Aproximadamente dez pessoas dispostas em cadeiras formando um círculo. Ao centro, o líder da reunião, Astrobaldo, que trata logo de apresentar Fábio para os novos colegas:
- Boa noite companheiros, este é nosso novo amigo Fábio, ele também está buscando ajuda e iremos ajuda-lo a seguir os 12 passos.
Todos respondem em uníssono:
- Boa noite Fábio. CAGADAS NUNCA MAIS!
Astrobaldo puxa uma cadeira para Fábio e pede para que ele conte sua história.
- Boa noite, meu nome é Fábio, tenho 30 anos e estou aqui porque não quero mais fazer cagadas. Eu reconheço, sou um mestre em fazer cagadas e preciso de ajuda.
Todos começam a aplaudir o Fábio e vão, um a um, abraçar o novo companheiro. Começa então a reunião. E os homens contam a própria história para ajudar o novo companheiro.
- Boa noite companheiros, meu nome é Júlio, tenho 43 anos e sou mestre em fazer cagadas, preciso de ajuda. Estou há oito dias sem fazer nenhuma cagada.
Todos começam a aplaudir, Olavo, faz sinal de positivo com a cabeça, impressionado com a marca de oito dias do companheiro Júlio, Sérgio e Carlos, também se olham impressionados.
- Bem a minha última cagada, foi na terça-feira dia 07, tinha que buscar minha filha na escola, desta vez graças ao apoio do companheiro Carlos, que me ligou lembrando o que eu deveria fazer, não esqueci minha filha na escola pela trigésima vez... O problema é que uma pessoa acostumada a fazer cagadas tem que ficar sempre atenta, qualquer distração e voltamos a fazer merda. Infelizmente, fiz... desta vez esqueci a Bárbara no metrô e tive trabalho até encontra-la. Mas desde então, SEM CAGADAS!
E todos juntos responderam: "CAGADAS NUNCA MAIS!!!!!!" E agradeceram a contribuição de Júlio para o grupo.
Sérgio começa a dar o depoimento:
-  Boa noite companheiros, meu nome é Sérgio, tenho 28 anos e sou mestre em fazer cagadas, preciso de ajuda! Estou há um dia e quatro horas sem fazer cagadas. Minha última cagada, foi no Shopping Center, ao buscar meu lanche derrubei o refrigerante em cima de uma velhinha que estava com o neto na praça de alimentação,  tentei remediar a situação, mas apenas serviu para as batatas voarem em cima da mesma senhora. Estou arrependido. CAGADAS NUNCA MAIS!
- CAGADAS NUNCA MAIS!!! - gritaram em uníssono.
O líder da reunião pediu a palavra.
- Meus amigos estamos todos unidos nesta reunião pelo mesmo motivo,  somos mestres em fazer cagadas... no nosso caso não se tratam de cagadas isoladas, mas sim de uma sucessão delas, um mestre das cagadas, geralmente caga pisa em cima e gira o pé. Muitos de nós perdemos o emprego,mulher, crédito com a família. Mas, podemos reagir. Podemos dar a volta por cima! Eu estou há exatamente...
Neste momento Astrobaldo levanta para dar mais força ao discurso e acaba esbarrando na mesa... no toque brusco do corpo contra o local a garrafa térmica de café cai sobre os papéis e começa a vazar... rola até o companheiro Geraldo, que ao tentar agarrar a garrafa, queima as mãos... Fábio faz um esforço para ajudar mas quebra a cadeira e despenca contra o chão.
A garrafa térmica se espatifa na sala e gira enquanto espirra café para todos os lados...
Astrobaldo volta ao discurso.
- Estou há 5 segundos sem fazer cagadas...
Obs. Enquanto estava lendo este texto pelo menos 5 milhões de pessoas faziam cagada em todo mundo e precisam de sua ajuda. Dados do "Ministério do Vai dar Merda" dão conta de que 85% das cagadas surgem com intenção de acerto. Estatísticas apontam ainda que o local de maior incidência de cagadas no país é Brasília. Lembrem-se um dia de cada vez.

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Amo o frio em São Paulo

Eu amo o frio. Sim me julguem e detestem, mas principalmente quando estou em São Paulo, eu amo o frio.

A temperatura mais baixa faz as pessoas desta cidade mais dignas e cheirosas. Torna até o metrô e ônibus lotados agradáveis.
 
Sinceramente nenhuma metrópole merece viver no calor, deveria ser lei: "Qualquer cidade com mais de cinco milhões de habitantes sem praia não pode ter calor". 

Afinal, que graça tem o calor sem praia? É como futebol sem gol, rock sem solo, sei lá, na minha cabeça não faz sentido, sinto que falta algo...  Calor é para o Rio de Janeiro,  Santos, Nordeste, enfim, não para São Paulo. 

As situações se complicam num aglomerado urbano de 12 milhões de habitantes, em que quase todas as ruas são subidas ou descidas.

Não é fácil subir ladeira no calor, você chega suado no seu destino. E o transporte público? Não suporto aquele famoso caldo de rego nos lugares vazios... (para quem não sabe o que é um caldo de rego, uma breve explicação: Vem do grego "caldus regálicus", trata-se do líquido proveniente do espaço entre as duas nádegas. Este líquido sudorífico cisma em cair nos bancos de metrôs, ônibus e afins, quando está calor e o local é ocupado por uma pessoa que não cobre o rego devidamente). 

 Fora que quando está lotado fica muito pior, imagina viajar por quilômetros com o rosto colado no suvaco do indivíduo que está na sua frente... Acredito que o inferno seja algo parecido com um metrô da linha vermelha no horário de pico de uma segunda-feira quente. Reúne tudo que um local para martírio do ser humano precisa. 

Isso quando você não dá a sorte de um rapaz sem dentes com a camisa do Curintia subir neste metrô lotado, em horário de pico, em plena segunda-feira, com você com o rosto praticamente grudado no suvaco da pessoa da frente (que geralmente não usa desodorante). Em 90% das vezes este indivíduo odioso liga o celular tocando um maravilhoso funk ostentação. 

Quando chega no trabalho a situação pode ficar pior... Em São Paulo usar bermuda é um atestado de que você se trata de um vagabundo, sendo assim, 98,987% das empresas proíbem os homens de usarem bermudas, as mulheres no entanto podem ir trabalhar com saias, camisetas e afins... 

O problema é que isso causa uma verdadeira guerra pela temperatura ideal do ar condicionado, enquanto as mulheres querem um ar em 26 graus, nós homens necessitamos de algo mais ameno, entre 13 e 14 graus, pelo menos. 

Ah e dormir no calor em São Paulo, levando-se em consideração que se você deixar a janela aberta pode ter até a sua cama saqueada por marginais, seu sono dependerá de um bom ar condicionado ou ventilador, virado exclusivamente para você.

Por essas e outras eu amo o frio em São Paulo e por mim, aqui viveríamos num eterno inverno, um clima londrino seria o ideal.

terça-feira, 12 de novembro de 2013

Revelação do marido

Pouco antes de morrer Jorge percebe que é o momento de contar a verdade para esposa. 

Já são 20 anos de casados e ele não aguentava mais guardar no peito tantas mentiras...

Foi informado um dia antes pelo médico que teria pouco mais de um mês de vida e resolveu ir em frente, livrando a consciência antes da morte.

- Querida tenho uma confissão a lhe fazer antes de morrer.

Rita se assustou mas era um caminho sem volta e incentivou o marido.

- Pode dizer Jorge nada será pior que lhe perder.

- Pois bem mulher, tenho que lhe dizer...

A mulher trêmula se corroía de ansiedade antes de Jorge concluir, o que seria tão grande para durar 20 anos?  Seria outra família?  Traição? 

- Fale homem - disse Rita visivelmente transtornada.

- Certo Rita... vou ser obrigado a falar... seu feijão é horrível.

- O que? - disse ela num misto de susto e raiva.

- Sim, seu feijão é sem dúvida o pior que já comi, imagine meu sofrimento em guardar ano após ano este segredo. Além de ter sido devotado e fiel a ponto de comer esta massaroca insossa e pastosa por todo este tempo sem ao menos reclamar.

A mulher pasma com a revelação não soube o que dizer,  ficou imóvel e calada.

- Não sei porque tolerava isso. Sofri calado e tive que buscar satisfação fora de casa. Sabe as marmitas que me fazia para o almoço? Todas sempre foram para o lixo.  Mas o pior era o trabalho de remover os resíduos do terrível feijão da marmita.

- Mas como buscar satisfação fora? - indagou a já nervosa esposa.

- Comia no boteco do Jonas. Sim, eu comia lá todos os dias... como queria que seu feijão fosse igual o do Juremar, o cozinheiro do boteco. Mas não,  seu feijão é horrível... Cansei de viver em meio a estas mentiras.
A mulher não sabia o que dizer nem o que fazer...

Jorge só pensava em uma coisa: no feijão do boteco, em como seria triste morrer e nunca mais comer aquele feijão.

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Antropologia amadora - parte I

Diante de meus estudos antropólogicos amadores avançados, sem nenhuma base científica e levando em conta apenas minha fraca noção de realidade, percebo que existem apenas 10 tipos de seres humanos e mais 10 subtipos de cada um desses que falei anteriormente.
Dentre estes tipos o que mais me irrita é o "bocas abertas, subtipo acomodadus".
Vai dizer que nunca viu um?
O "bocas abertas" trata-se de um ser humano lento, despretensioso, com risada de abobado e geralmente perdido. Costuma andar olhando para cima e lados para ver se sabe onde está e geralmente fica com a boca irritantemente aberta, o que justifica o nome.
O subtipo "acomodadus" como o nome sugere trata-se de um "bocas abertas" em estágio avançado, sem a menor pretensão de mudar...
Vamos para aplicação prática:
- No transporte público:
É aquele mala que entra devagar no metrô olhando para cima, ou fica parado na porta para esperar um vazio.  É aquele mesmo que num ônibus ou lotação fica de pé em frente a um lugar vazio impedindo que alguém sente.
- No trânsito:
É aquele que fica parado no sinal amarelo ou atravanca cruzamentos.
-Na escola:
É aquele que pergunta para a professora se pode ser em dupla de três e ri igual besta depois...
No trabalho:
É o que vive sugando alguém, afinal não sabe fazer nada.
No aspecto social costuma se relacionar bem com outros de seu subtipo e geralmente se reproduz junto com outro "bocas abertas acomodadus".
Isso acaba dificultando a miscigenação deste subtipo e faz com que eles perpetuem a espécie.  Segundo estimativas do DataIvan eles representam pelo menos 30% da população brasileira.